O ex-senador Luiz Estevão terá que devolver R$ 468 milhões aos cofres
públicos da União. O recurso foi desviado da construção do prédio do Tribunal
Regional do Trabalho (TRT) de São Paulo, nos anos 1990. O acordo foi assinado
nesta quinta-feira (23) entre a Advocacia Geral da União (AGU) e o Grupo OK, de
Estevão.
De acordo com a AGU, esta é a maior recuperação de dinheiro público da
história do país. Ao todo, serão pagos cerca de R$ 468 milhões, dos quais R$ 80
milhões à vista. O restante, R$ 388 milhões, serão pagos em 96 parcelas mensais
de aproximadamente R$ 4 milhões (a AGU não informou o valor exato), a serem
corrigidas mensalmente pela taxa Selic.
Luiz Estevão confirmou, por telefone, o acordo mas não quis dar mais
informações.
Os valores se referem a duas ações de execuções de decisões do Tribunal
de Contas da União. O dinheiro será repassado para os cofres do Tesouro
Nacional. Uma das ações cobra a multa e outra o débito principal do valor
desviado da obra do órgão público.
Para garantir que o pagamento dos valores que estão previstos para serem
feitos em 96 parcelas mensais sejam realizados – R$ 388 milhões – a AGU afirma
que manterá a penhora de 1.255 imóveis e de aluguéis de imóveis pertencentes ao
Grupo OK. O valor, segundo a AGU, gira em torno de R$ 2,5 milhões mensais. O
acordo será submetido à Justiça Federal para homologação.
Segundo a AGU, o acordo firmado com o Grupo OK para o pagamento de R$
468 milhões abrange apenas parte da dívida. Sobre a parte referente a multas e
juros acumulados no período, ainda não há consenso. A AGU informa que
continuará cobrando judicialmente o valor, atualmente em cerca de R$ 542
milhões.
De acordo com a procuradora-geral da União Helia Beterro, o acordo foi
feito sem que a União abrisse mão de nenhum dos valores que estavam sendo
cobrados.
“É o maior pagamento da história de 500 anos de Brasil no combate à
corrupção, porque não dizer, um dos maiores do mundo”, disse a procuradora.
Segundo ela, o acordo representa uma mudança de paradigmas. “Estes
valores, indevidamente desviados, voltam aos cofres públicos [...] Deste modo,
o Brasil entra no primeiro mundo do combate à corrupção”.
“Espera-se que, aqui,
a imagem negativa que maculava o fórum de São Paulo seja revertida”, disse.
O procurador do Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União,
Marinus Marsicus, elogiou a postura do Grupo OK em aceitar o acordo com a AGU.
“Este processo poderia se desenrolar por longos e longos anos. Diante da
assinatura deste acordo, o grupo sai de cabeça erguida perante a sociedade”,
disse.
Já o advogado do Grupo OK, Marcelo Bessa, afirmou que o grupo começou há
dois anos as tratativas para resolver as pendências judiciais que já se
arrastavam havia mais de dez anos.
Segundo ele, a dívida que será paga representa cerca de 5% do patrimônio
do grupo, que estava sendo bloqueado totalmente devido à dívida com a União.
“Nós entendemos que era o mais prudente no momento, o mais sensato,
tendo em vista todas as variantes, fazer o acordo, sem discutir, a questão do
valor, mas foi o acordo possível. Sendo o acordo possível, passa a ser o acordo
que interessa ao Grupo OK para poder retornar à normalidade da sua atuação no
mercado”, disse.
Histórico
Em 21 de junho, a Sexta Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ)
decidiu por unanimidade (três votos a zero), manter a condenação de Luiz
Estevão pela acusação de superfaturamento de cerca de R$ 170 milhões às obras
da sede do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) de São Paulo.
Em 2006, o Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF-3) condenou Luiz
Estevão a 36 anos e meio de prisão e R$ 3 milhões em multa.
Ex-sócios da construtora Incal, que teria executado a obra, os
empresários José Eduardo Corrêa Teixeira Ferraz e Fábio Monteiro de Barros
Filho também foram condenados, respectivamente, a 27 anos e oito meses de
reclusão e R$ 1,2 milhão em multa e 31 anos de prisão e R$ 2,4 milhões em
multa. A condenação aos empresários também foi mantida.
O superfaturamento no TRT paulista teria ocorrido durante os anos 1990
com o aval do então presidente do tribunal, Nicolau dos Santos Neto, aposentado
após o episódio e condenado a prisão domiciliar. Estevão teve o mandato cassado
no Senado por conta do episódio.
Os três réus foram condenados por corrupção, estelionato, peculato
(desvio de dinheiro público), uso de documento falso e formação de quadrilha.
O recurso chegou ao STJ em 2010. No dia 8 de maio, o relator,
desembargador convocado Vasco Della Giustina, havia votado a favor da
manutenção da condenação.
O ministro Gilson Dipp acompanhou o relator e o terceiro ministro a
votar, Og Fernandes, pediu vista (mais tempo) para analisar o processo.
Argumentos
da defesa
Segundo o STJ, os advogados de defesa dos réus argumentaram falta de
prova pericial em laudos que atestaram o superfaturamento no TRT, ilegalidade
na quebra de sigilo bancário e também questionaram a classificação das
acusações.
Eles alegaram que houve
dupla acusação para o mesmo fato, por exemplo, estelionato e corrupção. Todos
os argumentos foram rejeitados pelos magistrados do STJ.

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